Nosso país está atualmente envolvido em um grande debate a
respeito do futuro do sistema de saúde dos Estados Unidos. E, ao
longo das últimas semanas, boa parte da atenção da mídia esteve
concentrada nas vozes que ocupam os cargos mais altos. O que
ainda não escutamos foi a voz de milhões de americanos que se
debatem diariamente contra um sistema que, na maioria das vezes,
beneficia mais as seguradoras do que os próprios cidadãos.
São pessoas como Lori Hitchcock, que conheci em New Hampshire,
na semana passada. Lori trabalha atualmente como autônoma e
tenta abrir seu próprio negócio, mas por ser portadora de
hepatite C, não encontra uma seguradora que aceite cobrir seu
caso.
O depoimento de outra mulher afirmava que uma seguradora se
recusou a cobrir males relacionados a seus órgãos internos em
razão de um acidente que ela sofreu quando tinha 5 anos de
idade.
Um homem perdeu a cobertura do seu plano de saúde no meio do
tratamento quimioterápico porque a seguradora descobriu que ele
tinha cálculos biliares, mal que ele próprio desconhecia quando
assinou a apólice. Por causa do atraso no seu tratamento, o ele
morreu.
Ouço mais e mais histórias como essas a cada dia, e é por
isso que estamos agindo com tamanha urgência para aprovar a
reforma nos seguros de saúde ainda este ano. Não preciso
explicar aos quase 46 milhões de americanos desprovidos de
seguro o quanto isto é importante. Mas a questão é de igual
importância para aqueles que já dispõem de seguro de saúde.
Há quatro maneiras por meio das quais a reforma que estamos
propondo oferecerá mais estabilidade e segurança a todos os
americanos. Primeiro, para aqueles que não têm seguro de saúde,
haverá a opção de uma cobertura acessível e de alta qualidade
para suas famílias - cobertura que as acompanhará em caso de
mudança de endereço, mudança de profissão ou mesmo situação de
desemprego.
Segundo, a reforma vai, finalmente, controlar o custo cada
vez mais alto dos planos de saúde, o que representará uma
economia real para as famílias, empresas e para o governo.
Cortaremos centenas de bilhões de dólares que são desperdiçados
pela ineficiência de programas federais de saúde, como o
Medicare e o Medicaid, além dos subsídios injustificados pagos a
seguradoras que nada fazem para melhorar a qualidade do
atendimento e preocupam-se somente em aumentar os próprios
lucros.
Terceiro, ao tornar o Medicare mais eficiente, seremos
capazes de garantir que uma maior parcela do dinheiro arrecadado
com impostos seja destinado diretamente ao atendimento dos
idosos, em vez de engordar os cofres das seguradoras.
Além de proporcionar aos idosos de hoje os benefícios que
lhes foram prometidos, isto também vai garantir, no longo prazo,
a boa saúde e funcionamento do programa Medicare para os idosos
de amanhã. Nossas reformas também reduzirão o preço que os
idosos pagam pelos remédios que lhes são receitados.
DISCRIMINAÇÃO
Por último, a reforma vai proporcionar a cada americano
algumas proteções básicas que obrigarão as seguradoras a
responder pelo serviço prestado. Uma pesquisa nacional,
realizada em 2007, mostra que as seguradoras discriminaram mais
de 12 milhões de americanos nos três anos anteriores em razão da
verificação de doenças e condições pré-existentes.
Essas práticas chegarão ao fim. Nossa reforma vai proibir as
seguradoras de negar cobertura a qualquer cidadão por causa de
seu histórico médico. Elas não poderão encerrar a cobertura caso
o segurado adoeça. Não poderão buscar pretextos para diluir a
cobertura no momento de maior necessidade do cliente. Não
poderão mais estabelecer limites arbitrários sobre a cobertura a
que o cliente tem direito num determinado ano, ou mesmo ao longo
da vida.
Vamos impor um limite à quantia cobrada do cliente por
despesas adicionais. Não é admissível que um americano fique sem
dinheiro por estar doente. O mais importante: exigiremos das
seguradoras que cubram os check-ups de rotina, o atendimento
preventivo e testes como mamografias e colonoscopias.
Não há motivo que justifique a não detecção antecipada de
problemas, como o câncer de mama e o câncer de próstata. Isto
faz sentido, salva vidas e economiza dinheiro.
É isto que a reforma pretende fazer. Para aqueles que não têm
seguro de saúde, haverá opções acessíveis e de qualidade assim
que a reforma for aprovada. Para aqueles que já têm seguro de
saúde, garantiremos que nenhuma seguradora e nenhum burocrata do
governo sejam obstáculos entre o cliente e o atendimento de que
ele necessita.
Aqueles que gostam de seus médicos podem continuar sendo
atendidos por eles. Aqueles que gostam do seu plano de saúde
poderão mantê-lo. Ninguém precisará esperar nas filas. Não se
trata de encarregar o governo de administrar os planos de saúde.
Acredito que as únicas pessoas encarregadas de decisões
relacionadas à saúde são o cidadão e o seu médico - e não os
burocratas do governo e nem as seguradoras.
O prolongado e vigoroso debate a respeito do atendimento
médico que tem sido travado nos últimos meses é algo positivo.
Trata-se do tipo de coisa que caracteriza os EUA. Mas precisamos
nos certificar de conversarmos uns com os outros, dando ouvidos
aos demais pontos de vista.
É certo que haverá discordâncias, mas é melhor discordar
sobre temas reais, e não sobre mal-entendidos mirabolantes que
em nada se assemelham a algo que alguém tenha de fato proposto.
Trata-se de um tema complicado e crítico, que merece um debate
sério.
Apesar daquilo que vimos na televisão, acredito que um debate
sério esteja ocorrendo nas mesas de jantar de todo o país. Nos
últimos anos, recebi incontáveis cartas e perguntas sobre o
sistema de saúde. Algumas pessoas são favoráveis à reforma e
outras demonstram preocupação.
Mas quase todos compreendem que alguma coisa precisa ser
feita. Quase todos sabem que precisamos responsabilizar as
seguradoras pelo serviço que prestam e dar aos americanos uma
maior sensação de estabilidade e segurança em relação ao
atendimento médico que recebem.
Acredito que, ao final dos debates, seremos capazes de chegar
ao consenso necessário para atingir esta meta. Já estamos mais
próximos do que nunca de conseguir uma reforma do seguro de
saúde.
Conseguimos conquistar o apoio da Associação Americana de
Enfermeiros e da Associação Americana de Médicos, porque os
enfermeiros e os médicos do nosso país sabem, em primeira mão, o
quanto a reforma é necessária.
Conseguimos no Congresso apoio para aproximadamente 80% do
que estamos tentando fazer. E conseguimos que os fabricantes de
remédios concordassem em reduzir o preço dos remédios vendidos
sob prescrição médica, tornando-os mais acessíveis para os
idosos. A Associação Americana dos Aposentados apoia essa
medida, e concorda que a reforma precisa acontecer ainda este
ano.
RISCO
Nas próximas semanas, os cínicos e os opositores continuarão
a explorar o medo e as preocupações para obter ganhos políticos.
Mas, apesar de todas as táticas do medo empregadas no momento, a
única coisa verdadeiramente assustadora e arriscada é a
perspectiva de não se fazer nada.
Se a situação atual for mantida, continuaremos a ver 14 mil
americanos perderem seu plano de saúde todos os dias. As
mensalidades continuarão a aumentar. Nosso déficit continuará
crescendo. E as seguradoras seguirão lucrando com a
discriminação contra os doentes.
Não é esse o futuro que desejo para minhas crianças e nem
para as de todos os cidadãos. Não é esse o futuro que desejo
para os EUA. Afinal, não se trata de uma questão política.
Trata-se do bem-estar e da qualidade de vida das pessoas.
Trata-se dos negócios da população.
Trata-se do futuro de nosso país, de sermos capazes de olhar
para trás daqui a anos e dizer que este foi o momento no qual
fizemos as mudanças que necessitávamos, que demos aos nossos
filhos uma vida melhor. Acredito que podemos e iremos fazê-lo.
* Barack Obama é presidente dos Estados Unidos