fazer um
balanço da saúde pública brasileira, o jornal do
Consórcio Brasileiro de Acreditação entrevistou o
Ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Ouviu o que
mudou nesses dez anos de ANS, vinte anos do SUS e 60
anos do National Health Service (NHS), sistema de saúde
britânico que inspirou o brasileiro. O CBA cedeu a
entrevista ao Saúde Business Web. Confira.
CBA - Como está a saúde pública brasileira? O
que mudou da idealização do SUS aos dias atuais?
José Temporão - No dia 3 de julho, divulgamos a
Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da
Mulher (PNDS). Ela revela que as políticas sociais
implementadas no país resultaram em significativa
melhoria de vida da população brasileira, especialmente
de mulheres e crianças, que passaram a ter maior acesso
aos serviços de saúde, assistência médico-hospitalar,
medicamentos e métodos contraceptivos.
Nos últimos dez anos, por exemplo, houve a redução em
mais de 50% da desnutrição das crianças menores de cinco
anos, uma soma de acesso a serviços de saúde, programas
de transferência de renda e melhorias sociais, como o
maior poder aquisitivo da população. No período também
tivemos uma queda de 44% na mortalidade infantil, o que
tem indicado que iremos cumprir antes do tempo uma das
Metas do Milênio, da OMS, que trata do tema. Isso nos
mostra que avançamos na saúde pública brasileira, o que
não tira a nossa responsabilidade de olharmos para os
desafios que ainda temos de enfrentar.
CBA - Como está a saúde para a população e os
profissionais brasileiros? Quais os pontos fortes e o
que ainda precisa melhorar?
Temporão - O Brasil vem construindo,
desde 1988, um sistema de saúde destinado a garantir a
todos os cidadãos o acesso universal e igualitário,
orientado pelas necessidades da população brasileira,
independente de renda, cor ou posição social. Não há
duvida de que o SUS é a maior política de inclusão
social em curso do país. Atende diretamente a 145
milhões de pessoas, sendo os demais beneficiados em
ações como vigilância de alimentos, de medicamentos e
epidemiológica, campanhas de vacinação e ações
específicas para determinados procedimentos e
distribuição de medicamentos
Entendemos que é preciso cobrir vazios assistenciais e
solucionar as filas de espera, a demora no atendimento e
as relações insatisfatórias entre profissionais de saúde
e usuários. Essas questões estão entre as metas do
programa "Mais Saúde: Direito de Todos". Lançado em
2007, pelo Ministério da Saúde, o programa é direcionado
à promoção e atenção integral à saúde da população
brasileira. Prevê, também, investimentos no complexo
industrial da saúde em diversos setores: assistência
farmacêutica, pesquisas e produção de insumos,
tecnologias, vacinas, entre outros produtos.
CBA - O que o SUS perdeu com a extinção
da CPMF e o que ainda pode perder, caso a CSS não seja
aprovada?
Temporão - No final de 2007, foi
discutido um projeto que colocaria mais R$ 24 bilhões da
CMPF para a área de saúde. Já, com a Contribuição Social
para a Saúde (CSS), que atualmente tramita no Senado, o
orçamento receberá um incremento de R$ 10 bilhões por
ano.
Caso a proposta seja aprovada no Congresso, os recursos
provenientes da CCS serão destinados ao financiamento de
uma série de ações previstas no Programa Mais Saúde. São
alguns exemplos: atendimento de 26 milhões de alunos de
escolas públicas por equipes da saúde; ampliação das
ações de planejamento familiar; aumento do Saúde da
Família em 12 mil equipes, o que possibilitará ter uma
cobertura de 150 milhões de brasileiros; construção de
10 mil novas unidades básicas de saúde em pequenos
municípios; criação de 68 novos Centros de Atendimento
Oncológico (Cacon), com especial atenção ao tratamento
de câncer de mama e de colo de útero; reestruturação de
300 serviços de hemodiálise em funcionamento no país e a
aquisição de quatro mil novos aparelhos; subir de 187
para 342 as unidades de cardiologia; atingir 16 mil
transplantes; introduzir vacinas no Programa Nacional de
Imunizações, como as de Pneumococos e Meningite C;
finalizar de obras inacabadas; universalizar o Serviço
de Atendimento Móvel de Urgência (Samu); e chegar a 20
mil farmácias do Aqui tem Farmácia Popular.
A aprovação da CSS viabiliza, portanto, a melhoria da
gestão do Sistema Único de Saúde, em todos os níveis,
com um elenco de medidas. Entre elas, a recomposição
gradual dos valores das tabelas de procedimentos do SUS
e o aumento dos tetos financeiros dos estados,
iniciativa que representa R$ 5,4 bilhões a mais nos
próximos quatro anos.
CBA - Quais as metas do Ministério da
Saúde para os próximos cinco anos?
Temporão - O Ministério da Saúde
lançou, em dezembro de 2007, o Programa Mais Saúde
(2008-2011), que constitui-se numa reorientação radical
da política de saúde em busca deste objetivo. O programa
inova ao propor modelos de gestão, como as fundações
estatais de direito privado. Introduz mecanismos de
gerenciamento de processos assistenciais, modernizando a
regulação do acesso aos serviços de saúde por meio do
cartão nacional de saúde e da gestão de redes e
territórios assistenciais. Prevê, também, o
fortalecimento dos mecanismos de controle social,
aumentando a capacidade dos conselhos de saúde e dos
mecanismos de ouvidoria e auditoria.
O programa objetiva, ainda, a racionalização e
potencialização do uso dos novos recursos; o
compartilhamento da gestão e dos investimentos com
estados e municípios; o estabelecimento de mecanismos
formais de contratualização, com metas de saúde e de
atendimento entre os gestores, e a ampla melhoria da
qualidade dos serviços.
CBA - O Ministério da Saúde já tem
alguns hospitais acreditados e outros em processo de
acreditação. Qual a meta do Ministério em relação a
acreditação?
Temporão - A única forma de melhorar a
gestão é com a adoção de um programa contínuo de
formação e treinamento dos profissionais que atuam no
setor saúde. E essa qualificação requer aperfeiçoamento
técnico e também humanístico, visto que o atendimento de
Saúde tem que ser, necessariamente e antes de tudo,
humanizado. O Brasil tem instituições independentes com
reconhecida importância no meio médico-hospitalar
acreditando hospitais brasileiros.